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Os relógios-caveiras


"Vem, pois, ó Morte ao nada me transporta...

Morrer, dormir, talvez sonhar, quem sabe?"

(Francisco Otaviano)

Ah, amigos, todos sabemos o que significa aberração, não é mesmo ?

Para lembrar-lhes o termo, verifico no dicionário que aberração "é o desvio do que é considerado padrão". "É a qualidade, condição ou estado de irregularidade que resulta desse desvio". (Dicionário Houaiss)

Descartando a acepção de que aberração é "desvio, de maneira anormal, perversa ou exagerada de qualquer regra, padrão ou modelo", apego-me às duas primeiras definições para confessar que em horologia esses espécimes ditos "diferentes" de relógios me atraem. Muito.

E por que isso ?

Quiçá porque fogem da regra geral ditada há anos na relojoaria, que torna todos os relógios semelhantes na aparência: caixas redondas (forma de uma moeda), cifras seqüenciadas, coroa posicionada às 3, 4, 9 ou 12 horas, mostrador protegido por um cristal.

Pois bem, existem relógios diferentes disso tudo.

Alguns designers (especialmente nos anos 70) contracuturalmente enveredaram noutros caminhos, explorando novos materiais e formas, e criando relógios que hoje são ícones daquela era. Quem aqui não teve um relógio-calculadora, que longe de ter alguma serventia prática para a grande maioria de nós, eram usados indiscriminadamente como "um charme a mais", capaz até de chamar a atenção da namoradinha quase pueril daquela época, e que hoje já não se impressiona nem mais com a vida.

Pois é, o tempo passa, vão-se os anos, e os relógios, após a euforia da época do "milagre brasileiro", por fora permanecem quase os mesmos. E quando a Ulysse Nardin num raro rompante de genialidade lança um Freak, ou um Felix Baumgartener joga à luz o seu belíssimo Urwerk, são execrados, enquanto absolutamente incompreendidos.

Esquecem esses "criticos" da teoria da "arte pela arte", que postula a noção de que esta deve ter como único objetivo proporcionar prazer estético, alheando-se de quaisquer outros fins ou valores".

Pois eu penso assim, portanto, Vive la Difference !

No passado (século XIX) alguns relojoeiros também construíram relógios diferentes. Macabros, sem dúvida, mas fora dos padrões normais da relojoaria, e que seriam usados para marcar as horas da vida, contudo, objetos de lembrança da morte, tão ligada ao passar do tempo.

Tais relógios a que me refiro, são aqueles sob a forma de caveiras, e que não raro trazem grafadas as expressões latinas Incerta mortis hora (a hora da morte é incerta), ou ainda Memento mori (recorda a morte), como que contrapondo-se à vaidade humana e traduzindo de maneira simbólica a nossa relação conflituosa com o fim da vida.

Espécimes raros, esses relógios são às vezes confeccionados em metais nobres e incrustados com pedras preciosas.

Venerados no passado como evocativos da vileza da vaidade, hoje são meras curiosidades no mundo da violência banalizada, acostumada a ver a morte de perto.

Mesmo como tais, hoje são valiosos e desejáveis para quem vislumbra não só a mecânica da relojoaria, mas também a arte expressada na sua mais pura forma, mesmo que não convencional. Mesmo que meramente representando a oposição da vida.