COMO FUNCIONA UM RELÓGIO
MECÂNICO ? *
(Artigo de um amigo
do México, Alberto Posadas, publicado originalmente em espanhol no site "Inforeloj".)
Um dos
grandes atrativos dos relógios mecânicos é ver o conteúdo de sua estrutura
interna. Observar em detalhes todos esses pequenos componentes, entrelaçados
perfeitamente para cumprir seu trabalho, nos enche de dúvidas sobre a forma de
seu funcionamento.
A fascinação pela mecânica em nós
aficionados pelos relógios, nos leva, ao menos a querer entender esse processo
mecânico, ajustado tão minuciosamente para obter aqueles resultados tão
recorrentes e necessários em nossa vida diária: a leitura das horas e minutos.
Nesse artigo se explicará, de maneira explicita o
funcionamento básico de um relógio à corda, fazendo-se menção aos nomes mais
comuns dos componentes, a distribuição destes dentro de um calibre, e a
utilização simultânea de todos esses elementos, a fim de que se tenha uma melhor
compreensão do trabalho realizado por esse tipo de movimento mecânico
O
movimento a detalhar, é um Duward de carga manual com 15 rubis, cujo “ebauche”
foi fornecido por A Schild (AS), calibre 1130, com 29 mm de diâmetro e 3,9 mm de
espessura, freqüência de 18.000 a/h, reserva de marcha de 38 horas, manufaturado
no ano de 1965. A imagem do movimento em questão é mostrada abaixo:
Bem, suponhamos que o retiremos de
nossa gaveta para levá-lo conosco durante um dia inteiro. Pois a primeira
providência a se tomar será “dar-lhe corda” para que o relógio comece sua
marcha. Quando exercemos essa função que aparentemente é tão simples (à primeira
vista) os resultados no interior do relógio são diversos, todos objetivando um
princípio básico de se obter energia através da utilização correta de
componentes metálicos, com certas características em sua composição, desenho e
capacidade de armazenamento de energia.
Esses componentes,
que consubstanciam-se-de uma pequena espiral (mola real), eixo e caixa protetora
conjuntamente chamados “tambor, guardam e provêem força a esse tipo de
movimento. Adiante será detalhado em seus aspectos principais. Então, quando
damos corda no nosso relógios, é isso que ocorre dentro dele:
Se gira a coroa (1), e essa através da tige
(2) e do pinhão de transmissão que está abaixo da platina da corda(3) aciona a
roda intermediária (4), a qual gira acionando o tambor de carga, que esta
debaixo da “rochet” ou roda de carga (5). Esse tem um freio na “cliquet”(6) para
evitar a regressão da pressão da mola criada mediante a força exercida ao se dar
corda.
Mas por que ao dar corda necessitamos da “cliquet’ para que
freie o retrocesso do barrilhete.? O barrilhete ao girar acumula energia no
centro de seu eixo, advinda da mola real, a essa altura contraída. Essa mola,
que nada mais é senão uma espiral metálica, devido à sua flexibilidade cria uma
força liberando energia que alimenta todo o sistema. O barrilhete que se
encontra abaixo da “rochet” (vide imagem anterior) contrai a mola real em
direção das setas (veja-se abaixo).
Pois bem, uma vez que se dê corda no relógio, essa “pressão” armazenada
na mola espiralada se libera lentamente através do barrilhete, movendo os dentes
de engrenagem da roda do tambor. A imagem seguinte nos mostra a continuação
deste processo.
A roda do tambor (ou tampa do tambor) se encontra conectada com os
“dentes” da roda central ou “primeira roda”(7). O tamanho minúsculo dos dentes
dessa roda dentada e seu pinhão, exercem força sobre a segunda roda (8), a qual
impulsionando a mesma força, porém com menor tamanho da engrenagem move o pinhão
da terceira roda (9), e finalmente aciona a roda de escape (10). A foto abaixo
mostra de maneira mais explícita este funcionamento do trem de rodagem.
A roda de escape é o último componente
do trem de rodagem. Essa exerce fricção e força controlada com a âncora (11).
Para cada impulso, há uma entrada de pressão no “lábio” do rubi posicionado do
lado direito da paleta (12) e uma saída ou escape no “lábio do rubi” posicionado
no lado esquerdo da âncora (13). A constante fricção da roda de escape e a
âncora proporciona o típico “tic-tac” de todos os relógios de corda mecânica.
Este processo se entende melhor na imagem
seguinte, editada com base um desenho publicado na revista
Europastar:
Este movimento em conjunto e coordenado com a
pressão proveniente do trem de rodagem movem o conjunto volante-espiral mediante
o choque constante da âncora com a “elipse do platô ” (17). A imagem anterior
mostra esse momento. Ao girar de forma bi-direcional (veja próxima foto)
choca-se com a âncora, e a inércia daí advinda move o já mencionado conjunto
volante-espiral. Esse conjunto é composto pelo “volante” (14), espiral (15) eixo
do volante (16) e o mancal do “balancim”.
Ainda relativamente à imagem acima, está
assinalado o componente a qual tem que ser ajustado para que finalmente o
calibre marque a hora e minutos corretos sem adiantar ou atrasar sua marcha. Me
refiro ao registro do regulador (18). Esse movimento contínuo entre a roda de
escape, a âncora e o conjunto de volante-espiral regula a marcha do tempo.
Sua latência pode ser de 18.000
alternancias por hora (h/a), referência ao número de semi-oscilações dadas pelo
volante a cada 60 minutos, 21,600 a/h, 28,800 a/h ou até 36,000 a/h ou mais.
Para maiores informações sobre o aspecto das alternâncias, consulte-se o
artigo escrito por Evalls
chamado “Alternancias", no endereço http://www.inforeloj.com/spa/item/alternancias.html.
Este
é o processo mecânico do nosso relógio comum. Para tal, entretanto nos cabe
recordar que para a indústria relojoeira chegar a esse nível de desenho e
funcionamento mecânico tiveram que passar séculos desde as primeiras
interpretações do tempo e dos ciclos naturais da civilização humana.
Mas
nem tudo está explicado: quando pegamos nosso relógio e lhe damos corda, esse
começa sua marcha. O que necessitamos mais ? Ajustar a hora e minutos corretos,
não ? Então se fazem necessárias mais algumas explicações sobre outra parte do
calibre mecânico: o sistema de ajuste das horas.
As imagens seguintes mostram em minúncias esse sistema de
ajuste das horas e minutos, com a coroa na posição normal e na de ajuste do
relógio (puxada). Na imagem abaixo, mostra-se o movimento com a corôa na posição
normal ou em repouso:
Na foto seguinte, é muito importante que se note as diferenças
quando puxamos a coroa, vejam:
Esse sistema não é tão complicado. Primeiro exerço pressão na
coroa, puxando-a (1). Esta move a transmissão ou tige (2), e imediatamente
aciona o tirete (3). Esse libera e pressiona a placa flexível da tirete (4) , a
qual recorre com a dita força ao pinhão deslizante (5) por meio da báscula (6) e
encaixe com a roda de transmissão (7). Ao dar a volta com a corôa esta gira em
ambas as direções, movendo a roda de horas (8) e esta a dos minutos (9), que por
sua vez estão “ligadas” aos ponteiros.
Desta forma, ajustadas as horas e os minutos, é deixar que o
calibre faça seu trabalho.
O resto dos componentes tem seus nomes
específicos:
1. Pontes. 2. Parafusos vários. 3. Mancais de
rubis, para evitar o atrito do constante movimento dos eixos das engrenagens e o
conjunto volante-espiral) 4. Platina. (mais uma imagem para uma visão mais
detalhada dessa peça, vide abaixo).
Por outro lado, cabe só relembrar que para alguns relojoeiros, o “trem de rodagem”
tem várias denominações, já que a nomenclatura varia entre relojoeiros, cidades
e países devido à ausência de uma norma reguladora para os termos usados a esse
respeito. Por exemplo: 1- Eixo do tambor ou árvore do tambor. 2- Roda central ou
primeira roda. 3- Roda de escape ou quinta roda, etc. Como conclusão, o sistema mecânico de um relógio é
complicado e interessante. Anos de investigação e desenvolvimento tiveram que
passar para que se pudessem obter esses parâmetros de precisão e tamanhos tão
reduzidos.
Esses aspectos de precisão emanam em dois pontos: a precisão do processo de
desenhar componentes minúsculos cujo funcionamentos estejam perfeitamente
calibrados entre si, e a precisão de seu adequado funcionamento e ajuste para
que em conjunto realizem seu trabalho que não é de todo simples, marcar as horas
e os minutos.
Uma vez conhecido este sistema, sabemos que no momento de
levantar o pulso para realizar uma leitura de horas e minutos, há todo um
processo mecânico perfeitamente coordenado no interior destas pequenas
maravilhas mecânicas, que quanto mais sabemos delas, mais reconhecemos suas
feições nobres e artísticas que tanto nos agradam
*Tradução por ffamora
